Encarando as ondas de Nazaré

Em outubro de 2018, estive com meu marido e um casal de amigos em Nazaré, Portugal. Cheguei até a beira-mar da Praia do Norte, onde Lucas Chumbo estava treinando, enquanto Renan, seu filmmaker, registrava tudo. Janela do Big Wave Tour aberta, mas sem competição. Subi até o farol no Forte de São Miguel Arcanjo e visitei o Surfer Wall, onde estão expostas as pranchas de surfistas recordistas, inclusive a representante brasileira, Maya Gabeira.

Imaginei como seria assistir ao campeonato ali de cima, bem próximo ao farol. Mais um evento para incluir na minha lista de coisas a fazer antes de morrer, rsrsrs. Tenho uma lista extensa, não sei como concretizá-la, mas não custa nada sonhar!

Nazaré, Portugal

Sexta-feira passada (07/02/2020), no almoço semanal na casa dos meus pais, antes do entardecer, meu irmão Tonico, que é cadeirante, comunica que vai para Nazaré no próximo domingo (09/02/2020), juntamente com Haroldinho, meu irmão caçula, Luiz Felipe, meu sobrinho (ambos surfistas) e o amigo Flávio Pisca. A tecnologia e a previsão de tempo, às vezes certeira, indicavam que rolaria o campeonato na terça-feira (11/02/2020).

Eu, por N razões, nem pensei em realizar um dos meus sonhos! Sempre fui menos impulsiva; dessa vez, seriam eles, meus irmãos, que estariam lá, vivenciando o Nazaré Town Surfing Challenge.

Tonico, Luiz Felipe, Haroldinho e Flávio

E, se vocês pensam que o desafio é apenas dos surfistas, é porque não conhecem a história de Tonico. Surfista adolescente, inquieto, rebelde, polêmico, sofreu um acidente de carro aos 25 anos e ficou paraplégico. Já se vão mais de trinta e um anos numa cadeira de rodas, que é a extensão de seu corpo.

Viajar para ele não é fácil. Tinha uma certa resistência em visitar a Europa, com receio de que as acomodações, as ruas e os espaços públicos não fossem adequados. Em 2010, consegui convencê-lo a nos acompanhar numa viagem à Itália, onde meu marido e amigos iriam pedalar na Toscana (olha a bike me proporcionando viagens incríveis!).

Ele foi, gostou e quebrou mais uma barreira, entre tantas na sua vida: já brincou Carnatal, pilotou jet ski, é apaixonado por carro, participa de campeonato de arrancadas, gosta de conhecer novos lugares, vive sob constantes desafios.

Mas toda viagem sempre provoca ansiedade. Dessa vez, não teve muito tempo para pensar. Comprou rapidamente a passagem, reservou o hotel e partiu para Ericeira, cidade/praia próxima a Nazaré. A chegada ao hotel provocou stress. O quarto adaptado possuía apenas banheira como opção para banho. Não sei onde está a cabeça de quem planeja isso! Já é difícil para quem tem a mobilidade integral entrar e sair de uma banheira, imagine para um cadeirante! É preciso entender que a acessibilidade quer dizer tornar a pessoa o mais independente possível.

Bateu aquele banzo, como disse ele. Mas logo Haroldinho conseguiu um novo hotel. Este sim, totalmente adaptado à mobilidade reduzida, com amplitude acima do necessário.

Apenas como dica, sempre que for viajar com um cadeirante, peça fotos dos quartos e banheiros antes de fechar uma reserva de hotel. Muitos deles, embora afirmem o contrário, não dispõem de acomodações adequadas.

Acomodação resolvida, descanso do voo no primeiro dia e partiram para Nazaré na manhã seguinte. Friozinho de 12ºC, uma neblina misturada à espuma que emerge das ondas gigantes. No sábado, a tempestade Clara assolou o norte europeu. Um voo de Londres a New York, que chega a durar oito horas e dez minutos, foi encurtado em 112 minutos pela velocidade dos ventos. O mar agitado subindo a adrenalina desses competidores insanos.

Carro estacionado, Luiz Felipe empurrando a cadeira, logo se instalaram no alto do monte que abriga o farol. Vista privilegiada, dividida com uma multidão que se acomodava na encosta. Tudo para assistir ao primeiro campeonato de Tow In em Nazaré, com os brasileiros Rodrigo Koxa, Pedro Scooby e Lucas Chumbo no Team Brazil, e a representante feminina Maya Gabeira no Team Word, juntamente com o alemão Sebastian Steudtner.

Sonho realizado! As ondas gigantes de Nazaré encaradas de frente. Jet skis auxiliando e resgatando os surfistas. Cada um assumindo os riscos de surfar em mar tão agitado. Roupas adequadas para enfrentar o frio, colete inflável embutido, pranchas entre 9kg e 10kg e milhões de litros de água na cabeça. O surfista português Alex Botelho saiu desmaiado após o jet ski que o resgatava ser atingindo por uma onda pesada, ele foi literalmente ejetado, mas passa bem.

Quatro potiguares assistindo tudo. Velocidade extrema, equilíbrio, turbilhões de água salgada, bombas, vibração da plateia, superação. Não entendi nada do campeonato, mas vocês, meus irmãos, estavam lá, sendo meus olhos, meu corpo, minhas pernas e minha mente para escrever essa crônica.

Alex Botelho em Nazaré – Vídeo divulgado pela WSL

Acesse também: Entrevista com Jadson André, Surf, deu Baía Formosa no Pipe Master e no WCT e Surf nos anos 70.

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4 Comentários

  1. Talvez por não ter sido tão planejado, esteja sendo mais relaxado. É notória a felicidade e satisfação de Tonico pelas fotos. Fico feliz por ele. Parabéns também por compartilhar os cuidados a serem tomados por um cadeirante em viagens ou uma escapada de suas rotinas.

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