Linhas sobre meu pai

Foto por Haroldo de Sá Bezerra Filho

Hoje, 29 de fevereiro, meu pai completa oitenta e quatro anos. Conversando sobre o seu aniversário, me disse com ares de orgulho: fui econômico até nisso, só comemoro de quatro em quatro anos.

No ano passado, o Tribunal de Contas me convidou para escrever sobre ele, Haroldo de Sá Bezerra, filho de José Bezerra de Araújo. Confesso que essa tarefa me soou mais difícil do que os livros que publiquei.

Sou descendente de sertanejo, povo que tem dificuldade em exprimir sentimentos, não gosto de floreios, arrodeios, enfeites. Então fica complicado falar de quem está vivo, bem junto ao coração. Mas como assumi o compromisso, o jeito foi enfrentar o desafio e traçar essas linhas sobre sua vida. Republico o texto aqui no blog, como forma de celebrar a sua data:

Haroldo de Sá Bezerra nasceu bissexto, em 29 de fevereiro de 1936. Como a época não era de tanta burocracia, seus pais acharam melhor registra-lo em 1º de março, para garantir o aniversário todos os anos. Mesmo a data oficial constando no papel, preferiu poupar e só celebrar de quatro em quatro anos.

Nasceu em Ceará-Mirim, terra de sua mãe, Yvette de Sá Bezerra, minha avó. Ela optou por ter o primogênito junto aos pais, na segurança e conforto do verde dos canaviais, apesar de morar em Currais Novos/RN.

Haroldo foi criado em fazenda, com educação rígida e conservadora. No seu álbum de fotografias de infância, sua mãe indagava se seria padre ou fazendeiro. Estudou no Colégio Marista, mas se diz ateu, apesar de eu achar que tem uma fezinha em Deus. Virou fazendeiro.

Formou-se em agronomia e economia. Uniu as duas formações para colocar em prática a tradição da família na lida com a terra e os ensinamentos de seu pai com o zelo e a parcimônia no trato com dinheiro. Criou fama de amarrado.

Eu nasci e cresci absorvendo os seus ensinamentos: poupar é muito importante, nunca gaste tudo que ganha; apague a luz, energia é muito cara. Na fazenda tivemos os maiores ensinamentos sobre poupar água: dentes escovados com um copo de água, mãos lavadas em bacia de ágata, chuveiro fechado para ensaboar o corpo. Lições hoje replicadas mundo afora para salvar o planeta, que foram essenciais para quem convive com a escassez de bem tão precioso no Sertão.

As lições da vida privada ele levou para o setor público, onde fez carreira. Trabalhou na ANCAR, SACRAFET e Ministério da Agricultura, foi diretor do BDRN e do BANDERN, Presidente da CIDA, Secretário Estadual da Fazenda, Secretário Estadual de Agricultura e Conselheiro do Tribunal de Contas até a aposentadoria compulsória em 2006.

Sua atuação foi marcada pela rigidez no trato com o dinheiro público e pelas exigências com os servidores. Nem sempre foi compreendido, mas procurava repetir os ensinamentos da vida privada. Marcou sua gestão no Tribunal com o início da informatização da Corte de Contas.

Depois da aposentadoria, ocupou o tempo cuidando dos seus negócios. Hoje só quer a tranquilidade, os filhos assumiram as atividades. Papai pode ficar tranquilo, seus exemplos e ensinamentos foram bem assimilados.

Seu coração suavizou, soltou as amarras, deixou que o tempo cumprisse sua missão. Como dizia Mario Quintana, segue em frente, fumando seu cigarrinho, jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas, cercado pela família que construiu: Selma, sua mulher; Tonico, o filho mais velho; eu, a única filha, casada com Henrique Cirne, mãe de Luiz Henrique, casado com Eduarda Soares, e Cecília; Haroldinho, o caçula, casado com Rachel Vasconcelos, pai de Mariana, Marina e Luiz Felipe.


Mario Quintana

SEISCENTOS E SESSENTA E SEIS

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6.ª feira…
Quando se vê, passaram 60 anos…
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente …

E iria jogando pelo caminho a casca dourada
e inútil das horas.

Dominguinhos – Riacho do Navio

Acesse também: Um novo dia, Caminho da infância e Sorriso de menino.

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4 comments

  1. Parabéns Elzinha, o sentimento de carinho e respeito foram assimilados, mesmo para quem é seridoense, avessa a exaltação de carinho. Um beijo no coração!
    Feliz aniversário Dr. Haroldo. Obrigada pelo tempo de convivência: obediência a hierarquia; respeito sem medo; observação para aprendizagem.

    1. Oi Teresa! Transmitirei os parabéns para ele. Publicar o artigo é um gesto grande de carinho dessa seridoense, kkkk. Muito obrigada, beijo carinhoso.

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