Soltador de pipa

Jogávamos conversa fora na barraca da praia, quando um elemento estranho sobrevoa nosso habitat de verão. Um zunindo característico – nem de abelha, nem de aeromodelo – mais parecido com um disco voador em miniatura, que já chegou a assustar a população de interior.

Em algum lugar próximo, alguém manuseia remotamente o controle e o objeto de tecnologia moderna capta visuais sob perspectivas até então nunca vistas, olhando o mundo de cima.

Como a imaginação anda fértil, logo me transporto para o tempo em que o objeto a alçar voos era a pipa ou coruja, como a chamávamos na época da minha infância. O soltador de pipa fabricava o seu próprio brinquedo, com uma cauda adequada para dar estabilidade em voos altos. Pipa na mão e carretel na outra, era só esperar o vento soprar para empinar e controlar o brinquedo.

E o vento soprou forte, levou-me para o tempo de criança na praia de Muriú. Uma multidão aguardava a inauguração da energia elétrica. Não sei se a curiosidade era maior com a luz elétrica ou com a presença do missionário Frei Damião, que arregimentava fieis na sua longa estrada. Discursos proferidos e uma televisão instalada no meio da praça, para os moradores desfrutarem daquela invenção tecnológica que trazia novelas e notícias em imagens em preto e branco, lá pelos idos dos anos 70.

A TV virou ponto de encontro para as noites daquela praia, enquanto o dia era todo destinado à meninada. No meu tempo de criança, acordávamos cedo para aproveitar tudo o que o veraneio era capaz de oferecer e a nossa imaginação conseguisse inventar. A regra lá em casa era estar presente na hora das refeições, o resto do tempo poderia ser aproveitado de toda forma.

Sem a presença do celular – o telefone era restrito ao posto de serviço e tinha fila para as raras ligações – e sem o controle excessivo dos pais, aprendíamos a ser crianças destemidas e sabíamos nos defender. Desfrutávamos do mar. Sargaço não era agradável, estava sempre presente, mas não criava empecilho para entrar na água. Ultrapassada essa barreira frequente de algas, podíamos nadar à vontade e fazíamos dos lagosteiros os nossos trampolins.

As pranchas de isopor deixavam uma assadura ardida nas nossas barrigas; a solução era vestir uma camiseta para pegar cavalete; jacaré era coisa de familiares e amigos cariocas que, de vez em quando, aportavam na nossa praia. Como meu pai e amigos praticavam a pesca de arpão, tínhamos os nossos pés de pato, máscara e snorkel (não era chamado assim naquela época) para nadarmos e aproveitarmos a beleza dos arrecifes.

O Buraco da Velha era aquela piscina natural de arrecifes, larga, profunda, apropriada para o mergulho e a caça submarina. Íamos de jangada, molhando a vela de pano encardido para dar velocidade, abaixando a cabeça na hora de dar o bordo, levantando a bolina para passar sobre os arrecifes. O samburá permanecia amarrado, aguardando se o mar estava para peixe.

Depois vieram as catraias, manejadas a vara. De braços fortes, o catraieiro nos levava até o lugar certo para o banho em baixa-mar. Em marés de lua, esse era o programa da manhã: um piquenique nos arrecifes. Os motores de popa chegaram e tiraram a hegemonia dos lagosteiros na poluição dos mares. Era comum o rastro de óleo dos botes ancorados na praia, descansando dos dias em alto-mar, coletando os covos de lagosta, que chegavam no final da tarde juntamente com as jangadas. Tínhamos o peixe fresco e o crustáceo na nossa mesa.

A pesca submarina foi banida do Buraco da Velha e as catraias e barcos com motor de popa encontraram o Buraco da Moça, mais raso, estreito e adequado para as poucas horas de conversa, mergulho, tira-gostos e cachaça, por vezes, misturada ao leite de coco, suco de tamarindo ou mangaba, para dar aquela batida que enganava até os mais acostumados à bebida.

Menino ficava arrodeando, podia até ir nadando, porque lugar de criança não era entre os adultos. A meninada aproveitava. Compartilhava prancha, pé de pato, máscara e snorkel e ia a nado, deliciando-se com a farra, temendo apenas as moreias entocadas nas locas, parando para descansar nos inúmeros cabeços do caminho. Imaginem o desespero dos pais, se isso fosse praticado atualmente!

A rotina do veraneio tinha horários determinados pelo sol. Manhã na praia, sobremesa de dindin de Dona Jacira, pingue-pongue na casa de D. Mônica, vôlei à tarde (até quando a luz permitia), depois um banho de mar para encerrar as atividades diurnas; se fosse maré de lua, a turma toda aproveitava para pegar cavalete, pois o mar ficava mais bravo.

A noite chegava, mas não precisávamos trancar nossas casas. Estavam sempre abertas e podíamos transitar nos terraços de qualquer vizinho ou veranista. Redes permanentemente armadas, os meninos perturbavam mesmo quando batiam nos punhos de quem estava dormindo. E a dormida podia se estender por toda a madrugada, sem qualquer risco de insegurança (palavra desconhecida do vocabulário de então).

Enquanto os adultos jogavam cartas noite adentro, as crianças iniciavam no pano verde: sete e meio era o jogo preferido e a banca era disputada, torcendo pelo estouro dos jogadores. Só depois chegaram os arrastas, mas isso é pano para outras crônicas.


Gal Costa – Barato Total, música de Gilberto Gil

Acesse também: Rock, o cão e a praia, Verão em terras potiguares e Sonhando juntos.

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4 Comentários

  1. Peguei ainda o período de veraneio de pipas feitas à mão e da turma sem celular, não cheguei ao passado tão longe da TV em preto e branco na praça. O modelo antigo era melhor

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